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Vico Magistretti

O rigor do design
Texto: Nuno Ladeiro | Imagens: Cortesia de De Padova
Por Nuno Ladeiro, Architect - 31/out/2014

Vidun by Vico Magistretti (1987) | De Padova

Vico Magistretti, a par de Joe Colombo, Gio Ponti ou Achille Castiglioni, é um dos designers italianos mais conhecidos em todo o mundo. Depois de ter frequentado a Faculdade de Arquitectura do Politécnico de Milão, entre 1943 e 1944, foi estudar para Lausanne na Suíça. Mais tarde regressou a Itália e, em 1945, concluiu o curso de arquitectura. Começou a actividade profissional com o pai, o arquitecto Piergiulio Magistretti. Mas, foi na Trienal de Milão que deu nas vistas, em particular na participação das edições VIII e IX quando recebeu a primeira Medalha de Ouro. As suas criações são intemporais e ainda hoje se mantêm atuais. Para falar do rigor do seu trabalho é preciso recuar no tempo. Regressar a acontecimentos históricos que marcaram o percurso do design, como por exemplo a grande exposição “Machine Art”, organizada pelo então jovem arquitecto Philip Johnson no Museum of Modern Art nos EUA e que contribuiu para criar a ideia de rigor no design da Bauhaus. [1]

Vico Magistretti

 Silver by Vico Magistretti (1988) | De Padova

Pela sua particular qualidade formal, certos objectos mereciam ser considerados exemplares (referenciados pelo estilo Bauhaus). No catálogo desta exposição, podia-se ler: «Objectos úteis […] escolhidos pela sua qualidade estética», escrito pelo próprio curador da exposição, Philip Johnson, que fala de um conscious design, em oposição ao styling (e ao streamling) em que não há rigor mas apenas estética. A exposição apresentou máquinas, ferramentas, peças e componentes de máquinas, instrumentos científicos, objectos de uso doméstico, móveis (entre estes a cadeira e o escabelo de Breuer). Mostrou ao mundo o caminho a seguir, o rigor que o design deveria ter. A exposição contribuiu também para disseminação dos ideais da Bauhaus por todo o mundo. Assim se justifica que o design racional e purista tenha tido tantos adeptos no período imediatamente a seguir à guerra.

Incisa by Vico Magistretti, Centro Design Binfaré  (1992) | De Padova

De acordo com Teixeira Coelho (1995), [2] a modernidade promoveu tentativas de união entre a arte e indústria, a arte e máquina, e ainda, a arte e a técnica. Este processo, embora longo e conflituoso, procurou a harmonização entre o produto artístico e o produto industrial. A omnipresença da arte, caracterizou o aspecto esteticista da modernidade e foi um dos factores decisivos para a conformação do design. O funcionalismo foi decisivo para o entendimento da modernidade. A razão, a única via para a emancipação das sociedades e ainda, a eliminação das contradições económicas e sociais, traduziu-se no funcionalismo. O aspecto estético dependeria unicamente do aspecto utilitário.

Louisiana by Vico Magistretti  (1993) | De Padova

Mais tarde, a pós-modernidade libertou o design dos velhos paradigmas e passou a projectar para as pessoas em vez de projectar para o Homem. [3] Foi com a pós-modernidade que os valores estéticos se dissociaram dos condicionamentos político-ideológicos, assim como, da tecnologia industrial. Com a pós-modernidade, o design liberta-se e passa a explorar o seu aspecto estético e a dar valor ao belo. Recorre-se á ironia, a referências históricas e por vezes à valorização do banal. A flexibilização dos estilos e a nova cultura visual fazem com que o designer seja mais livre e instintivo. É neste contexto, que Vico Magistretti se afirma no design, influenciado pelos valores iluministas e universalistas. A transição da modernidade para a pós-modernidade fez com que o design renascesse de novo. Repudiaram-se os velhos dogmas e procuraram-se novas alternativas, plurais e contextualizadas. Esta mudança apoiou-se nas inovações tecnológicas e na diversidade social mas, para Vico Magistretti o rigor do design manteve-se.

Tuareg by Vico Magistretti  (1994) | De Padova

É neste contexto que nasce nos anos 50 o restrito grupo de arquitectos italianos denominado "terceira geração" e do qual fez parte Vico Magistretti. É nesta época que projecta o município de Cusano Milanino (1966-69), o quarteirão de Milão San Felice (1966-69 com Luigi Caccia Dominioni), uma casa em San Marco (1970-73) e recebe o galardão de design mais cobiçado, o Compasso de Ouro, que premeia os projectos dos candeeiros Eclisse (1966), Atollo (1977 e 1979) e mais tarde a poltrona Maralunga (1979). A partir daqui, passa a trabalhar com importantes marcas internacionais como: Artemide, Campeggi, Cassina, De Padova, Flou, Fontana Arte, Fritz Hansen, Kartell, Olivari, Oluce, Poggi, Schiffini e Thonet Vienna.

Flower by Vico Magistretti, Patricia Urquiola (1996) |  De Padova

Hoje, as suas criações estão expostas em colecções permanentes de importantes museus internacionais, como o Moma de Nova Iorque.

Mais informações em: www.dimensaonova.com

 

[1] Maldonado, T. (2006)  Design industrial. Lisboa: Ed. 70

[2] Teixeira Coelho, J.(1995) Moderno pós-moderno. São Paulo: Editora Iluminuras.

[3] Harvey, D. (1992) Condição pós-moderna. São Paulo: Edições Loyola.

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