easy architecture
< ver anterior ver seguinte >

O Dissecar do Museu do Oriente

Um olhar aprofundado do Edifício Pedro Álvares Cabral
Por ArchReady - 11/abr/2014



Bem-vindos a um profundo olhar ao Museu do Oriente, um autêntico marco em Alcântara de Lisboa!
Possivelmente foi feito em 1942, possivelmente virado para o mar ou terra, nem quem o desenhou sabia bem deste seu destino.
Tinha o nome de Edifício Pedro Álvares Cabral e era um antigo armazém da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau, fazendo parte de uma rede de abastecimento de bacalhau para o país todo, em resposta a uma ideia do Estado Novo para despensas nacionais de alimentos em caso de guerra.



Os baixos-relevos foram feitos por Barata Feio e o arquitecto original da obra era, possivelmente, João Simões, sendo a obra uma comissão pública. Fora feito perto das celebrações dos cem anos de independência nacional e da exposição do mundo português, tal como evidenciado pelo baixo-relevo do lado do rio com o grande “1940”.
O edifício teve uma grande ligação ao Estado Novo e uma tecnologia de ponta no que tocava ao frio industrial, até ao ponto de servir de escola para aqueles que gostariam de aprender mais sobre as técnicas associadas, o que levou à multifuncionalidade do edifício. Tão polivalente era que se tornou auto-suficiente - era provido de cantinas, mercados, oficinas, ginásio e até um ringue de patinagem!

Agora funciona como o Museu do Oriente e o edifício adjacente irá ser convertido na Fundação Oriente, que conserva e mantem o museu do mesmo nome.
A conversão do edifício foi levada a cabo pelo arquitecto Carrilho da Graça em 2008 que aproveitou as câmaras frigoríficas nos pisos inferiores para áreas museológicas como as duas exposições temporárias presentes no piso do rés-do-chão.
Aqui é-nos relembrado o processo do amoníaco para produzir frio provindo da casa das máquinas, que não servia para congelar o bacalhau mas sim para preservar o processo de salga. Para esse efeito, as ventilações, que agora se encontram cobertas, percorrem o edifício e as suas antigas câmaras frigoríficas a relembrar-nos da sua ex-função.
Não havia quase luz natural pois não se queria estragar a comida - a reabilitação tirou partido deste facto para as suas intervenções.



O espaço lounge e loja eram anteriormente as oficinas de carpintaria e serralharia, com toda a sua luminosidade directa contrastando com as várias galerias em que luz era um bem escasso. Estas últimas foram convertidas a exposições, escritórios ou auditórios fechados.
A cobertura, anteriormente utilizada como ringue de patinagem para os trabalhadores, deu-nos o tom de como a obra foi desenhada para servir todos os usos possíveis para estes. Acompanhada de elevador cénico, a vista relembra-nos da mudança do plano director para a zona de Alcântara, de uma zona industrial para os novos usos de turismo, dada a nova presença dos transatlânticos que começaram a desembarcar nesta área.
Para apoiar esta zona mais cénica do projecto, onde antes havia um ginásio e outro refeitório alternativo, Carrilho da Graça aplicou os conceitos de reconversão de uso compatível para transformar estes espaços em auditórios, escritórios e um restaurante.
O arquitecto também aproveitou a grelha de vigas e pilares para criar uma sequência de lanternins, criando pequenas versões das chaminés de luz ao estilo da Casa das Histórias em Cascais. Estas entradas de luz servem como demarcação de entrada para o público nesta secção.



No quarto piso, o contraste entre o passado e o presente foram muito evidenciados dado o largo corredor de paredes divisórias em vidro para remover a sensação claustrofóbica do local criada pelo comprimento e total ausência de luz natural de muitas divisões.
Além da abertura ampla para dar a leveza ao piso, dentro dos escritórios taparam-se as ventilações das antigas câmaras frigoríficas com gesso cartonado, para dar reversibilidade à intervenção.
Em reverso às ventilações cobertas, os pequenos corredores laterais que percorrem o perímetro do edifício, antigamente utilizados para passar a electricidade, permitem a passagem das condutas do ar condicionado.



Chegando à exposição permanente há um choque brusco causado pela pintura a preto deste piso inteiro. É um piso de pé direito pequeno, dado que era necessário que os trabalhadores do antigo armazém chegarem com as mãos ao bacalhau preso no tecto. Este tecto agora usa uma superfície polimérica reflectora baseada em PVC leve, economicamente eficiente que conseguiu salvaguardar o conforto humano, dado o reflexo.
O motivo das paredes terem sido pintadas de preto passou muito pelo cheiro que o bacalhau impregnou no antigo revestimento em cortiça densa. Este revestimento teve de ser arrancado e, no processo, partes da parede foram destruídas. A tinta preta serviu para encobrir alguns estragos.
Também houve a supressão de alguns pilares preexistentes que constrangiam muito o espaço. O motivo da existência de tantos pilares de grande grossura e proximidade entre eles era o sustento das mais de trinta mil toneladas de bacalhau e outros produtos que o edifício suportava.
Neste primeiro piso, para exibir os artigos museológicos, foram criados palcos cénicos, ilhas expositivas isoladas como vitrinas. Os utentes do museu passeiam por entre as ilhas, passando pelos diferentes vidros revestidos com cores que identificam cada uma das zonas do mundo asiático em estudo.
Apesar de criar uma atmosfera interessante, a sua cor escura juntamente com a ausência de locais de descanso neste piso, provocam uma sensação de cansaço acrescida, mas como um todo, este museu apresenta tantos pequenos recantos interessantes e exposições únicas, que vale a pena voltar sempre.


Imagens via A2P, Wikipedia, Flickr, Archdaily e Wordpress respectivamente.

< ver anterior ver seguinte >
Artigos relacionados
PUB