A globalização do Design
Tecnologia e tradição
Andrea Branzi, Per una Nuova carta di Atene, Biennale dell’Architettura di Venezia, Padiglione Italia, 2010
Quando pensamos na globalização do Design, pensamos sempre no Design sem fronteiras. A Internet, a televisão, as redes sociais e os media em geral permitem-nos saber “online” tudo aquilo que está a acontecer à nossa volta ou no Mundo.
A No-Stop-City dos Archizoom, foi sem dúvida o primeiro sinal da globalização do design. Nos anos setenta e oitenta do século passado um grupo de designers radicais Italianos – entre outros: Andrea Branzi, Gilberto Corretti, Paolo Deganelloe Massimo Morozzi – inventaram um novo conceito de cidade, a metrópole híbrida, que correspondia ao nascimento da sociedade pós-industrial. Era o resultado da complexa modernidade que afirmava o caos e a contradição presentes na sociedade dessa época.

No-Stop City imaginada pelos Archizoom

O grupo Archizoom: Paolo Deganello (esquerda), Massimo Morozzi (centro), Andrea Branzi (direita) e cartaz de apresentação do projecto No-Stop City
O incremento do consumismo, a multiplicação das tendências e a diversificação das propostas no design provocaram a contaminação do mercado. Este tornou-se híbrido e ilógico. Assim, a indústria começou a produzir num ambiente profundamente caótico e complexo, que resultava da concorrência, mas fundamentalmente da globalização.
Estas décadas de grande desenvolvimento da indústria Europeia permitiram o confronto entre um design mais estandardizado com outro mais anárquico, das tecnologias avançadas com as primitivas, de produtos para as massas com produtos individuais e ainda de objectos eternos com objectos provisórios.
Desta forma, o modelo de referência deixou de ser, por exemplo, “Oslo”, símbolo da social-democracia moderna, para passar a ser Nova Iorque, Hong Kong, ou mesmo Toronto. Qualquer uma destas cidades vive o dia-a-dia de memórias e de identidades de muitos lugares e culturas por vezes longínquas.
Estas preocupações permitiram a este grupo de visionários definir novos conceitos e estratégias que se revelaram indispensáveis para os designers e industriais de hoje.

Porta revistas e suporte para livros criado por Martì Guixè para a Danese – objecto multifuncional que permite colocar revistas ou livros de forma informal. Quando não é necessário guarda-se ou pode-se transportar com facilidade.

Estante e cabide Domestic Spin, criada por Matali Crasset para a Danese – objecto que permite associar funções diversas. Cabide e estante para livros e outros objectos.

Estante e prateleira criada pelo Designer Paolo Dell’Elce para a Danese – conjuga a versatilidade com materiais extremamente simples. A forma primária associada à flexibilidade do objecto permite que este seja colocado no interior de um apartamento de acordo com as necessidades. Pode ser transportada e montada em qualquer lugar.
Espelho criado por Álvaro Siza Vieira para a Danese – objecto de carácter primitivo e simples.

Estrutura multifuncional criada por Giulio Lacchetti para a Danese – pode ser transportada pela casa e até subdividida de acordo com as necessidades. Guarda-se e transporta-se facilmente.

Cozinha Bretel criada por Giulio Lacchetti sob orientação de Nuno ladeiro, fabricada e editada pela Dome – é uma cozinha portátil. Monta-se e desmonta-se facilmente. Tem estrutura própria e não precisa de fixar-se á parede. Destina-se a pessoas que querem manter a mesma cozinha mesmo quando mudam de casa.
Na década de noventa do século passado, a evolução das novas tecnologias proporcionou uma profunda reflexão sobre a metrópole híbrida e a No-Stop-City. A casa, o escritório, a rua, o hotel e o aeroporto passaram a ser unidades operativas, onde o Homem passou a trabalhar através dos novos meios de comunicação. Contrariamente à metrópole híbrida, a metrópole genérica, em que nos encontramos, segundo Andrea Branzi,é constituída por lugares com um nível de identidade muito reduzido mas, no entanto, com grandes níveis de produtividade. Esta nova forma de vida parece ser hoje o maior desafio do século XXI. Trata-se claramente de uma fusão conceptual e cultural, com contradições aparentes, com estilos de vida contraditórios, em que, por exemplo, uma cerimónia tradicional que envolva o serviço de um simples chá possa ser confrontada com uma qualquer tecnologia informática.
A globalização neste novo século evoluiu para uma nova maturação. Como escreveu Isao Hosoe, designer Japonês radicado em Itália, esta primeira década do século XXI proporcionou uma nova geração de objectos. Uma nova forma de vida, menos sedentária e cada vez mais nómada que está a provocar uma alteração profunda dos nossos instrumentos do dia-a-dia. Por um lado as nossas casas mantêm-se fiéis às tendências iniciadas durante a década de noventa, por outro, os novos objectos podem ser facilmente transportados e acompanharem-nos dentro de casa ou para qualquer lado.

Designer Japonês Isao Hosoe

Atelier de Isao Hosoe
Para Isao Hosoe, estamos perante um novo desafio que deverá proporcionar objectos capazes de transformar o design estático em dinâmico e ainda resolver a complexidade com soluções simples. Afinal já não é tão importante a globalização das diferentes culturas e sim das ideias. Já não se trata de importar a inspiração do Oriente para o Ocidente e vice-versa, mas sim de importar a nova geração de Neo-nómadas que ao viajarem em permanência por todo o Mundo vão deixando aqui e ali as suas ideias que se vão misturando com a cultura industrial dos diferentes países.
Texto de Nuno ladeiro
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