Quando a arquitectura se diverte
Edifícios-objecto e as suas histórias
Criatividade ganha outras dimensões quando se dá a liberdade ao artista.
Por vezes é tão simples como um pequeno detalhe, o enquadramento ou a emoção evocada.
Mas hoje não falamos dos pequenos detalhes mas sim dos exageros, não do enquadramento mas sim do caricato, falamos de quando um objecto transcende a escala habitual e se torna em algo parcamente engraçado e sempre memorável!
Seja por publicidade, por querer marcar uma posição ou por um acto de excentricidade, há muitos exemplos de arquitectura reminiscente de objectos.
Tudo começou em 1813, Paris, com o Eléphant Bastille.
Quando a Bastilha caiu, em Julho de 1789, era necessário substituí-la.
Quando demoliram a original e os seus materiais aproveitados para a construção da Pont de la Concorde, era necessário envisionar algo para fazer de monumento e eis que o próprio Napoleão concebeu, em 1808, o Elefante da Bastilha!

Envisionado como nesta pintura pelo arquitecto Jean-Anoine Alavoine, era para ser uma fonte de água e um edifício em si, mas com a queda de Napoleão na Batalha de Waterloo a construção cessou e foi demolido poucos anos depois pelo fim dos anos 1820.
No entanto, quando pensamos em edifícios-objecto, não pensamos no passado, mas sim em cestos!
O edifício mais marcante deste assunto, e algo que nenhum artigo destes poderia evitar mencionar é a sede da Longaberger Company, em Newark, Ohio!
Como um bom exemplo de publicidade, a empresa Americana de cestos de madeira feitos à mão Longaberger, apesar de ser um negócio de família, expandiu-se ao ponto de criar um marco na sua cidade de origem com uma versão colossal do seu produto principal, o “Medium Market Basket”.
O edifício de sete andares feito pelo atelier NBBJ e pela Korda Nemeth Engineering aberto em 1997 tornou-se num peso-pesado da arquitectura extravagante, figurativamente e literalmente pois somente as duas pegas do cesto gigante pesam 150 toneladas.
Mas nem todos os edifícios deste género têm de ser de grandes empresas ou marcar grandes eventos, também há exemplos mais modestos como a Teapot Dome Service Station, uma estação de serviço em Zillah, Washington.
Este simples marco foi construído como uma atracção à beira da estrada Route 12 e mereceu um local no registro de locais históricos nacionais dos Estados Unidos da América.
Originalmente concebido como uma alusão a um escândalo político americano durante a presidência de Warren G. Harding, agora é simplesmente um marco na história que nos deixa um sorriso a meio de uma viagem.
Além de não precisarem de ser grandes, também podem ser exemplos mais abstractos e alegóricos a um objecto ou acção, como por exemplo pode remeter-se a um navio, como no Museu Guggenheim de Bilbao.
Concebido pelo arquitecto Frank Gehry como um museu de arte moderna e contemporânea para a fundação Solomon R. Guggenheim, rapidamente se tornou num fenómeno global da arquitectura contemporânea.
Uma obra singular que representa o desenvolvimento técnico-artístico no seu exponente máximo enquanto também atrai milhares a vislumbrar o encontro da complexidade das formas e a simplicidade do conceito.
Gehry queria que as formas fossem geradas de forma a que parecesse aleatório, mas na verdade queria que nos evocasse as memórias de um barco, se visto pelo rio, e de uma flor, se visto de cima.
Dadas estas imagens idealizadas por entre conchas metálicas encontra-se não uma mas duas ideias de um outro objecto, que também invocam dois tempos: o encapsular da história industrial de Bilbao e o futuro brilhante que trouxe ao revitalizar a cidade no processo.

Não prestando atenção à forma ou escala destes objectos tornados gigantes, mas sim à quantia, surgem dois exemplos, ambos bibliotecas.
A fachada de 1989 da Bibliothéque Méjanes em Aix en Provence, na França e a parede lateral de 2004 da Kansas Public Library, nos Estados Unidos, ambos exemplos de conjuntos de livros inflacionados, legíveis sob a forma de edifício.
Começando com Le Petit Prince, mais conhecido como o Principezinho, uma compilação dos escritos de Moliere e L'étranger de Albert Camus, a peculiar biblioteca Méjanes cativa-nos a curiosidade com estas três obras.
Juntas estas histórias, formam três blocos, uma entrada e em si, um monumento que nos gravita para o sonho criado pelas mesmas e do resultado monolítico da sua composição.
Num cariz mais massivo, num exemplo de uma sequência inquebrada de livros inchados, formando uma parede de memórias que nos marcaram, encontrámos a americana Kansas Public Library.
Listando as suas escolhas das gerações de contos temos:
Dois agrupamentos de sete e oito obras, respectivamente, sobre a história e cidade de Kansas em si, como a historia arquitectural de Kansas, Goin' to Kansas City de Nathan W. Pearson, Mrs. Bridge de Evan S. Connell, Messages from My Father de Calvin Trillin e algumas outras;
Um volume da prateleira comunitária colossal com histórias para crianças como Green Eggs and Ham do essencial Dr. Seuss, The Wonderful Wizard of OZ, de L. Frank Baum e seis outros exemplares;
E além de histórias de Kansas e outras para os mais jovens, também encontramos obras marcantes da história da literatura como o Catch-22 de Joseph Heller, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, Tao Te Ching de Lao Tzu, To Kill a Mocking bird de Harper Lee, the Invisible Man de Ralph Ellison e mais, tendo este grupo umas espectaculares 20 espinhas de livros solidificando os nossos imaginários na paisagem da cidade.
Quantia também pode ser feita através de uma boa composição de contraste, não repetição, e como exemplo disto, temos a deslumbrante Piano House, em Huainan, na província de Anhui na China.
Criada apenas com o prepósito simplista de atrair o máximo de turistas possíveis para esta região com pouco mais para ver, as ordens foram lançadas para construir esta casa, agora galeria de exibições em forma de um brilhante piano e a escadaria translúcida da mesma em forma de violino de vidro.
Construído em 2007, servindo agora de sombra para os visitantes e exibição dos planos e plantas do distrito de Shannan, o edifício foi desenhado pela universidade de tecnologia de Heifei e foi construído a uma escala perfeita de 50:1, merecendo eventualmente o título do edifício mais romântico da China.
Mantendo-nos na Asia, encontramos um exemplo muito menos controverso do que soa: A sanita gigante da Associação Mundial de Sanitas, nomeada Mr. Toilet House, na Coreia do Sul.
Originalmente construída em 2007 como a casa de Sim Jae-Duck, o presidente de Suwon e fundador da Associação Mundial de Sanitas, após a sua morte em 2009 foi convertida num museu e homenagem a sanitas em geral.

Quem visita este museu tem direito a exibições da história de casas de banho, exposições de letreiros peculiares de casas de banho e, acima de tudo, a ir à casa de banho, a divisão privilegiada e central do edifício.
Tendo sido doada pela família de Sim Jae-Duck e convertida a um museu, a Mr. Toilet House agora também tornou-se componente iniciante e principal de um parque temático sobre o mesmo assunto, com esculturas dedicadas à cultura quase cómica de casas-de-banho à volta do mundo.
Falando de novo de objectos do nosso dia-a-dia dentro de casa, falamos de cómodas, mas como em tudo estando aqui a demarcar-se, fala-se de uma cómoda... Gigante.
A empresa Furnitureland South, querendo destacar-se como a maior loja de mobília do mundo, levou o significado de “maior” literalmente!
Criou-se assim uma figura de 25 metros de uma cómoda “Highboy”, no mínimo, impressionante.

Em 1999 a empresa criou o edifício Mart, croado como a maior réplica de uma cómoda do século XVIII do mundo e um dos marcos mais proeminentes de North Carolina.
Baseado numa estrutura metálica colocada in situ depois coberta por umas seis semanas ao longo do processo, a estrutura apesar de aparentar-se de madeira foi moldada a partir de espuma presa a aglomerados de madeira.
Para manter a autenticidade e rigor do design do móvel os desenhos técnicos foram impressos à escala e levados à obra para desenhar por cima dos aglomerados e cortados manualmente com serras eléctricas.
Algumas partes como o eixo que separa os dois níveis inferiores de gavetas aos superiores foram todos esculpidos no local à mão com escovas e lixas, e outras como o topo escultural foram feitos em separado em oficinas especializadas e levados para o local.
Os pés da estrutura foram feitos em grandes blocos de espuma cortados a fio-quente de metro e meio e a textura de madeira foi pintada ao pincel e rolo.
Além da última camada de verniz colocada em spray para dar um ar novo à obra, em 2008 esse acabamento foi refeito para se parecer ainda mais com o objecto e textura de inspiração.
Para acabar com um mimo e com um último exemplo, entre tanto outros, trata-se de um melhor amigo do homem feito melhor ainda, o Dog Bark Park Inn, em Idaho, nos Estados Unidos.

Artistas desde 1997, o casal de Dennis e Frances criaram o caricato cão de madeira desde o design à manufactura até abrirem as portas do Inn em Agosto de 2003.
O maior beagle artificial do mundo tornou-se num cerne do aconchego, uma casa de hóspedes, uma casa de pequenos-almoços e o abrigo para as criações de madeira dos artistas que tudo isto cortaram, pregaram e moldaram com as suas mãos.
Dado que bastaram dois para criar um destes marcos mundiais, é de pensar quem mais e quantos mais seguirão? Que mais faltará crescer e inchar para nos emoldurar nas memórias?
O único que ficou claro é simples: Já há muito, haverá mais e maior, sempre maior.
