Design e Arquitectura
Será apenas uma questão de escala?
Metropol Parasol, Sevilha by Jürgen Mayer | Foto © Nuno Ladeiro
O mais recente trabalho do prestigiado arquitecto e designer Mário Bellini, a mesa Opera para a marca Italiana Meritalia, será uma estrutura arquitectónica pensada e projectada à escala humana ou um objecto de design para ser usado pelo Homem?
Esta questão tem sido muitas vezes colocada quando observamos alguns objectos que se assemelham a edifícios ou vice-versa.

Mesa Opera by Mário Bellini | Meritalia
É o caso da Torre de Montjuïc em Barcelona, uma torre de telecomunicações, obra do arquitecto e engenheiro valenciano Santiago Calatrava, construída entre 1989 e 1992 na vila olímpica de Montjuïc, Barcelona, em função dos Jogos Olímpicos de 1992. Inicialmente pensada como um candeeiro de mesa, mais tarde tornou-se numa das torres mais emblemáticas de Barcelona. Já em Portugal, a Torre Burgo, um projecto da autoria do arquitecto Souto Moura, localizada na Avenida da Boavista no Porto, antes de ser uma torre foi um armário.

Torre de Montjuïc, Barcelona by Santiago Calatrava | Torre Burgo, Porto by Souto Moura | Wikimedia Commons
A polémica Casa da Música também no Porto, de acordo com o seu autor, o arquitecto holandês internacionalmente premiado Rem Koolhaas, devido aos constrangimentos do tempo disponível para a participação no concurso, teve de se adaptar, pelo que, fez-se um "scale to fit" de um projecto já existente, uma habitação anteriormente projectada mas que nunca chegou a ser construída e que, por força das circunstâncias, se transformou numa casa da música através do aumento de escala do edifício.

Casa da Música, Porto by Rem Koolhaas | Foto via Wikimedia Commons
Mas, regressemos à mesa Opera de Mário Bellini. Será que a estrutura em madeira nos remete para algo que já conhecemos? Na minha opinião não será certamente uma coincidência a semelhança entre a mesa Opera e a Metropol Parasol de Sevilha. A gigantesca estrutura de madeira na Plaza de Lá Encarnacion popularmente conhecida como as "setas de la Encarnacion", projectada por Jürgen Mayer, vencedor do concurso internacional realizado em 2004, tem uma estrutura em madeira semelhante com treliças ortogonais mas com uma escala diferente, bastante superior, de 1,5 x 1,5 m, com 150m de comprimento, 75m de largura e 28m de altura.

Metropol Parasol, Sevilha by Jürgen Mayer | Foto © Nuno Ladeiro

Metropol Parasol, Sevilha by Jürgen Mayer | Foto © Nuno Ladeiro
Os seis "cogumelos" amorfos, mais altos que os edifícios adjacentes que parecem flutuar sobre a praça proporcionam sombras em xadrez sobre a praça, tal como na mesa Opera, mas a uma escala inferior. Inspirada nas cúpulas da catedral e nas árvores da Plaza del Cristo de Burgos, a Metropol de Sevilha está alicerçada em seis "troncos", com sapatas em betão armado, onde se encontram os elevadores e escadas que dão acesso aos outros níveis. Também a mesa Opera está alicerçada em bolas de madeira maciça que ajudam a dar estabilidade à estrutura.

Mesa Opera by Mário Bellini | Meritalia

Mesa Opera by Mário Bellini | Meritalia
A arquitectura tal como o design têm inevitavelmente de servir-se de imagens para se construírem mentalmente (a partir do arquitecto ou designer como criadores) e se fixar numa representação antecipativa para transmitir aos intervenientes, na sua construção, as instruções dos seus autores (pelo projecto) e assim, significar a qualidade dos espaços e/ou objectos.

Metropol Parasol, Sevilha by Jürgen Mayer | Foto © Nuno Ladeiro
A arquitectura e o design são um processo semiótico e a sua imagem é uma espécie de sintoma do pensamento de quem, por intermédio do imagético, quer representar algo através da arquitectura. De acordo com Duarte Gorjão Jorge em "Imaginações da Arquitectura" a imagem como veículo de representações foi sempre sujeita aos modelos de produção e consumo próprios de cada época. As lógicas de figuração, que dependem de condicionalismos externos à imagem (mas não à imaginação), determinam os modos pelos quais os conteúdos das coisas ganham visibilidade. Isto quer dizer que a forma detectável dos objectos resulta sempre, afinal, de um acto de tradução: os conceitos tornam-se visíveis e a representação substitui a experiência das coisas. E assim, como em cada momento há uma língua cujo léxico limita o repertório das coisas dizíveis, também há um conjunto limitado de conteúdos que as formas visíveis podem reportar.
Deste modo, cada tempo possui o seu quadro epistemológico próprio que, por assim dizer, fixa os limites da representação e dos conteúdos representáveis. Por aqui, se torna a Arquitectura um processo semiótico e a sua imagem sintoma do pensamento de quem por intermédio do imagético, quer representar o arquitectónico.
A mesa Opera é certamente um produto do imagético que tem origem, muito provavelmente, a partir dos mesmos pressupostos da Metropol de Sevilha.

Mesa Opera by Mário Bellini | Meritalia
Texto de Nuno Ladeiro
Mais informações sobre a mesa Opera de Mário Bellini em www.meritalia.it
