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A Cadeira “Portuguesa”

Um ícone do design português
Por Nuno Ladeiro, Architect - 06/jan/2014

O espaço público das cidades portuguesas tem determinadas especificidades que o caracterizam. A cadeira “Portuguesa” reforça a identidade das esplanadas portuguesas. Desde sempre, intelectuais, artistas e pessoas comuns trocarem opiniões e vivencias nas esplanadas. Os turistas por sua vez, devidamente referenciados por guias ou por indicação de pontos de interesse turístico, também procuram estas esplanadas e em particular a Brasileira de Lisboa.

A cadeira “Portuguesa” pelas suas características desempenha um papel importantíssimo. Ergonomicamente bem concebida, com uma inclinação nas costas pronunciada, permite ao utilizador um descanso prolongado e contribui para a imagem tipicamente lusitana que está sempre presente num qualquer postal ilustrado.

No final dos anos 80, a disseminação do modelo de cadeira plástica branca quase destruiu a imagem do país. Mas, nos anos 90, durante os preparativos da Lisboa Capital da Cultura Europeia e a-propósito da construção do polémico Centro Cultural de Belém, a revista italiana de arquitectura e design "Domus", publicou um artigo elogioso sobre a cadeira “Portuguesa”. O edifício projectado por Vittorio Gregotti e Manuel Salgado teve a equipa do Atelier Daciano da Costa responsável pela concepção e selecção do mobiliário do CCB, que propôs entre outros modelos, a cadeira “Portuguesa”. Para Daciano tratava-se de um clássico modernista bem português que era perfeito para as esplanadas do CCB.

No mesmo período, a Câmara Municipal de Lisboa toma a iniciativa contra o desaparecimento e degradação das esplanadas e proíbe a utilização de cadeiras de plástico, criando uma normativa para obrigar os comerciantes a adoptarem, nomeadamente na Baixa, a cadeira “Portuguesa”, indo ao ponto de prescrever determinadas cores conforme as zonas.

Em 1992 num artigo nos "Cadernos de Design" do Centro Português de Design, de que Sena da Silva era na altura presidente, a cadeira é publicada na capa e o artigo baptiza-a com o nome de cadeira "Gonçalo". Tratava-se de um serralheiro da firma Arcalo que, nos anos 50, terá criado a cadeira a partir dum modelo anterior, também de sua autoria. A partir daqui, a história da cadeira passou a ser ponto de discórdia, pois modelos semelhantes, têm vindo a ser divulgados, retirando autenticidade à cadeira.

O Arquitecto René Herbst (Paris, 1891-1982), co-fundador da União de Artistas Modernos e um dos pioneiros do design moderno, criou um modelo que só se distingue pelo facto de ser estofada e estar indicada para o uso interior. Mas se analisarmos a história, verificamos que as cadeiras de concepção tubular aparecem em Portugal por volta dos anos 30, em cafés e hospitais.

O Café Nicola, no Rossio em Lisboa, preserva ainda hoje alguns desses modelos, inspirados na Bauhaus e nas cadeiras em tubo de aço curvado de alguns dos pioneiros do design, como Marcel Breuer, Mies van der Rohe e Mart Stam editados pela Thonet.

A cadeira “Portuguesa” tornou-se um atractivo “vintage” e tem sido sucessivamente reinterpretada por diversos designers. Eu próprio entendi que a cadeira em tubo de ferro não se adaptava às novas exigências do mercado, pelo que, em 1998 realizei o primeiro redesign da mesma, em estrutura de alumínio, costas e assento em policarbonato. Mais tarde, criei outra versão também em alumínio mas com o assento e costas em teca.

Atualmente encontra-se em estudo uma outra versão mais tecnológica, que será produzida em polipropileno revestido a vibra de vidro e que terá mais resistência.

Nuno ladeiro

www.dimensaonova.com

 

 

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