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Para onde aponta o dedo de Gehry?

2% choque + 98% revelação
Por ArchReady - 29/out/2014

Fotografia © J.L. Cereijido / EPA

O controverso e famoso arquitecto Frank Gehry volta a criar polémica devido à sua insólita reacção durante uma conferência de imprensa em Oviedo, Espanha, onde foi galardoado com o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes 2014.

Convidado a pronunciar-se sobre aqueles que o acusam de fazer "arquitectura espectáculo", Frank Gehry mostrou o dedo do meio ao jornalista, deixando na sala um momento de silêncio tão incómodo quanto explícito.

Segundo o jornal El Mundo “Nunca antes o algo pomposo hotel La Reconquista de Oviedo havia vivido um momento tão digitalmente erecto. Arquitectonicamente espectacular, por assim dizer.”

Este gesto, vindo de um dos mais aclamados e prestigiados arquitectos em todo o mundo, do alto dos seus 85 anos, tem circulado por todos meios de comunicação e redes sociais.

Mas se, por um lado, esta atitude pode parecer obscena ou até mesmo chocante – e é este lado que alguns media têm procurado explorar! – é importante analisar o contexto em que se insere.

O próprio arquitecto pediu desculpa pelo sucedido, atribuindo o excesso da reacção ao cansaço da viagem e ao facto de ter sido apanhado de surpresa.

“Deixem-me dizer-vos uma coisa, no mundo em que vivemos 98 % do que se constrói e se desenha é pura merda. Não há sentido do desenho, nem respeito pela humanidade nem por nada. São edifícios malditos e já está. De vez em quando, há um pequeno grupo de pessoas que faz algo especial. São muito poucos. Mas, por Deus, deixem-nos em paz. Dedicamo-nos a fazer o nosso trabalho. Não peço trabalho. Não tenho relações públicas. Não estou à espera que me chamem. Trabalho com clientes que têm respeito pela arte da arquitectura. Por isso, não me façam perguntas estúpidas como essa”, respondeu Frank Gehry.

De facto, o mais importante deste acontecimento é esta mensagem, reveladora da opinião da sociedade em relação ao trabalho dos arquitectos nas nossas cidades… o que não deixa de ser intrigante e assustador.

A pergunta do jornalista remete para uma crítica social que condena a arquitectura de Frank Gehry pela sua exuberância e destaque excessivos.

Excerto da série “Os Simpsons” numa sátira ao conceito por trás das obras de Gehry.

Museu Guggenheim, Bilbau | Foto via Wikimedia Commons 

Mas a indignação de Frank Gehry é legítima. Deverá a sociedade mostrar-se tão indignada pela extravagância de alguns edifícios que, pela sua singularidade, como por exemplo o Guggenheim de Bilbau, são capazes de ter um impacto tão positivo num território? Não deveria a mesma sociedade, pelo contrário, indignar-se com o facto de continuarem a construir-se espaços urbanos descaracterizados, edifícios sem identidade que se repetem em Lisboa, em São Paulo, Marselha ou Pequim?

A verdade é que para muitos, apoiantes ou não de Frank Gehry, esta realidade é muito mais chocante do que qualquer gesto obsceno feito em tom de desabafo!

 

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