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Fim da polémica sobre acervo de Siza Vieira

Espólio dividido entre Portugal e Canadá
Por ArchReady - 24/jul/2014

Álvaro Siza Vieira anunciou ontem a decisão relativa ao seu acervo, que vai ser doado, pelo próprio arquitecto, à Fundação Gulbenkian, à Fundação de Serralves e ao Canadian Centre for Architecture, em Montreal, uma das maiores instituições mundiais no campo da arquitectura que possui no seu museu e centro de documentação, espólios e acervos de alguns dos arquitectos de maior prestígio internacional.

A recente notícia de que o arquitecto estaria a negociar a transferência do seu arquivo para o Canadian Centre for Architecture gerou alguma polémica. Se havia consenso quanto ao direito que o arquitecto tinha de dispor, como bem entendesse, dos testemunhos do seu trabalho, havia também a preocupação de que o seu arquivo saísse de Portugal.

Álvaro Siza Vieira foi o primeiro arquitecto português laureado com o Prémio Pritzker, em 1992. O arquitecto explica que nos últimos anos sentiu a necessidade de organizar o arquivo do seu trabalho, procurando "uma solução que considerasse fundamentada", tendo verificado "existir um interesse evidente, por parte de pessoas e instituições". Alguns desenhos e maquetes do seu arquivo encontram-se já, alguns desde há anos, em Paris (Beaubourg), em Nova Iorque (MOMA) e em Londres (Niall Hobhouse Collection), nos respectivos arquivos de arquitectura.

"É meu desejo que o trabalho de tantos anos seja de algum modo útil, como contribuição para o estudo e debate sobre a arquitectura, particularmente em Portugal, numa perspectiva oposta ao isolamento – como já hoje sucede e é imprescindível. Iniciei algumas conversas, escutei recomendações e formei minha própria ideia sobre a forma como o meu arquivo deve ser organizado, e como e onde localizá-lo" afirma Siza Vieira.

De acordo com o arquitecto, a opção passou por doar parte do seu arquivo "a duas instituições portuguesas, já com experiência, qualidade e capacidade para desenvolver ou alargar os respectivos arquivos (Fundação Gulbenkian e Fundação de Serralves), numa perspectiva de abertura à consulta, divulgação e participação num debate que já não é simplesmente nacional, nem centrado no individual". A outra parte será doada ao Canadian Centre for Architecture, "instituição de experiência e prestígio ímpares e com intensa e contínua actividade", que é "reconhecida pela sua experiência na preservação e apresentação de arquivos internacionais", afirma o arquitecto.

"Conforme conversações já efectuadas, o Canadian Centre for Architecture estará disponível para colaborar com a Fundação Gulbenkian e a Fundação de Serralves na catalogação consistente do material e na partilha da pesquisa e programação relacionadas", acrescenta Siza.

Eduardo Souto de Moura, o segundo arquitecto português laureado com o Prémio Pritzker, em 2011, colaborador e amigo de Álvaro Siza Vieira apontava, em entrevista ao jornal Público, a necessidade de “uma Casa da Arquitectura com meia dúzia de arquivistas, uma instituição segura e firme” como a solução ideal para assegurar a preservação da memória e legado de arquitectos como Siza Vieira.

E deixa a provocação: “Portugal, praticamente, não tem nada de importante. A não ser futebol e atletismo. Os outros dizem que a nossa arquitectura é importante.”

Não podemos deixar de concordar em absoluto com as palavras de Souto de Moura.

Sendo a arquitectura parte integrante da cultura portuguesa, com reconhecido mérito e prestígio em todo o mundo, não seria natural que lhe fosse consagrado um espaço de referência com a dignidade que merece?

Talvez tenhamos que aguardar por mais um Prémio Pritzker… 

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